terça-feira, 15 de outubro de 2013

Diário de Viagem - Itália - malas e perdidos

Dicas práticas em viagem: você deve evitar ser dois tipos de pessoa: o chato, que ninguém quer por perto; e o perdido no mundo, que faz todo o grupo esperá-lo.

O chato é capaz de estragar o passeio de qualquer um. É aquele que reclama de tudo. Reclama porque está frio; reclama porque está quente; reclama de
acordar cedo; reclama se não viu tudo o que podia porque não acordou cedo; reclama que tudo é velho; reclama da comida...

Seguinte: ninguém vai morrer por não comer arroz e feijão por menos de duas semanas. E se quer tirar férias e comer arroz e feijão vai viajar pelo Brasil. Se quer tirar férias e erguer as pernas pra cima, vai te internar num resort do nordeste; não num grupo que vai virar outro país de ponta a cabeça em quinze dias. Se não quer ver velharia não te soca na Europa... Raciocínio lógico...

As pessoas são curiosas mesmo... Reclamam até do que é bom... Há quem adote esse hábito e depois não consiga mais se livrar... Quantas pessoas sonham uma vida inteira em viajar pra outro país e algumas dentre as que conseguem fazê-lo não enxergam o quanto são privilegiadas... 

Já dizia um velho "deitado": em Roma, faça como os romanos. Se na Itália se come pasta, a legítima massa italiana, é o que vou comer. Afinal, quero viver o país... 

A Tâmim sabe que massa é a minha última escolha sempre. Nunca liguei muito pra massa, não. Mas na Itália comi todos os dias. Porque as refeições dos italianos são compostas de dois pratos, e o primeiro invariavelmente é pasta...

E se eu preciso comer muito, vou pegar o primeiro e o segundo pratos. Se não, tenho que saber que se quero um prato melhor servido devo escolher um segundo prato...

O que mais acho graça é que as pessoas vão para outro país, de cultura milenar, pra passar quinze dias, e acham que o país de cultura milenar é que deve se curvar à belezoca que está de passagem por quinze dias...

Outra coisa: pessoa, viagem de grupo pra conhecer tudo quanto é coisa é viagem pra pernear. E você está pagando em euro. Como disse uma colega de grupo, a sábia D. Aracy, "dormir em euro é muito caro". Vai revirar tudo o que o tempo deixar...

Mas como me disse minha psicóloga Silvia, "mala faz parte de viagem". As malas e os malas...

Categoria perdido no mundo: não me irrita tanto quanto o mala. Porque o perdido no mundo não age deliberadamente; está perdido no mundo.

Só que o perdido no mundo atrai a antipatia de todo o grupo, já que está sempre atrasado e nunca presta atenção nas instruções do guia; logo, volta e meia o grupo todo está à espera da pessoa alienada... Sem contar o risco de ser deixado pra trás...

Efeito colateral útil dos chatos e dos perdidos: aprimorar a virtude da paciência... Pela qual não sou exatamente conhecida...

sábado, 12 de outubro de 2013

Diário de Viagem - Itália - parte 9

Quando era adolescente gostava de subir no último andar lá de casa para ficar olhando a linha do horizonte, imaginando o que havia para lá de onde a vista alcançava.

Já naquela época sentia um anseio irrefreável de ganhar o mundo. Se vivesse na Antiguidade certamente quereria me juntar aos argonautas; ou aos grandes descobridores da Renascença. Que bom que hoje todos podemos empreender viagens de descoberta.

Acredito que, acima de tudo, ser italiano é um estado de espírito. Se você fala com as mãos e gritando, é meio caminho andado...

Essa viagem à Itália representou e representa muita coisa. A realização de um antigo sonho, por certo. Mas viajar é alimentar a alma, é abastecer o espírito. Impossível não se renovar.

Significou muito pra mim que muitas vezes tenham me confundido com uma autêntica italiana. Não porque não ame ser brasileira. Pelo contrário. Porém, isso ocorreu porque consegui incorporar perfeitamente o espírito daquele local que estava conhecendo, tornando-me também eu uma local. 

Além disso, viajar é um momento em que podemos ser apenas nós mesmos, bem como de nos importarmos em apenas viver o presente (thanks, teacher Anderson, pela conversation de hoje). Tempo de usar meu uniforme preferido, jeans, tênis e camiseta...

Por outro lado, viajar também viabiliza que valorizemos aquilo que temos, olhando à distância. Nossa família, nossos amigos, nossa casa, nosso trabalho... É maravilhoso ir, como é maravilhoso ter para onde e para quem voltar. Asas pra voar e raízes pra alimentar.

Nunca esqueci uma oportunidade em que conversava com meu pai sobre algum país, e ele me disse que eu teria querido nascer em outro lugar. Não, nunca quis. Viajar por outras paragens é uma necessidade vital, que preciso atender de tempos em tempos, pra acalmar e satisfazer meu espírito inquieto. É bom ver que, de certa forma, atingi meu objetivo de me tornar uma espécie de cidadã do mundo, na medida de minhas possibilidades e limitações.

Henry James, em Horas Italianas, falando sobre Veneza, diz "... o melhor de tudo é simplesmente estar ali. O único modo de você apreciar Veneza como ela merece é dar a ela a oportunidade de tocá-lo com frequência - deixar-se ficar e permanecer e voltar. O perigo é que você não se deixará ficar o suficiente". Digo que isso vale para a Itália toda, não importa se Veneto, Lazio, Toscana, Campania ou o que for. Impossível não planejar o retorno; que se for como meu reencontro com Roma, será emocionante...

A Itália é pra quem ama História, Arte, Arquitetura, Geografia, Sociologia... E a beleza... Um caldeirão cultural efervescente caótico resultante da reunião de cidades seculares de diferentes origens e que muitas vezes guerrearam entre si mesmas. Muito charmoso... Quando lá não me furto de pensar que estou pisando solo de cultura milenar, como Roma, Pompéia e Verona...

A todos que me acompanharam nesse périplo italiano, o meu agradecimento; e o convite antecipado para participarem do próximo. 

Ainda publicarei uns dois posts de cunho menos poético e mais prático e ácido...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Diário de Viagem - Itália - parte 8

Nada preparou meu coração para o que encontrei na Costa Amalfitana... É uma daquelas belezas que nos deixa embevecidos, extasiados, sem fôlego...

Aí você vê que todas aquelas fotos belíssimas desse lugar são verdadeiras mesmo. Para qualquer lado que se olhe é possível ver um cenário de cartão postal.

A Costiera Amalfitana fica no Mar Tirreno, na Península de Salerno. Ela começa em Salerno, estendendo-se até Ravello. 

Fizemos o trecho que vai de Salerno a Amalfi, passando por Positano e Praiano.

Não há como explicar a beleza que vai se descortinando ante os olhos enquanto se serpenteia na estradinha estreita pelas escarpas íngremes, primeiro descendo e depois subindo.




De ônibus não há ida e volta. Só são permitidos num sentido. A estradinha é tão estreita que há curvas em que parece que o ônibus não conseguirá vencê-las. Não raro, o próprio ônibus ou quem vem no sentido contrário tem de aguardar passagem, dada a condição da estrada. Há trechos em que galhos de árvore roçam nas janelas.



Eu estava sentada do lado direito, justamente o lado voltado para a costa. Muitas vezes parecia que o próprio ônibus avançava pelo perau. Em várias oportunidades só via a água lá embaixo.



É muito lindo ver quando começam a aparecer as primeiras casas de Positano, espalhadas pela montanha.

Paramos em um determinado ponto e continuamos a pé, adentrando a cidadela.

Há vielas tão estreitas que só passa uma pessoa. E há outras em que passa um carro.



A pé se vai descendo e descendo, passando por boas lojas do comércio local, que vendem roupas, calçados e jóias, até se chegar à praia. 

De Positano seguimos a Amalfi de barco. É muito lindo se voltar para trás e ver Positano incrustada nas montanhas enquanto o barco vai singrando as águas.



Amalfi é outra paisagem extasiante. É uma cidadezinha em que é possível se comprar produtos típicos de limão. Balas, sorvete, doces, licor, sabonetes alusivos... Enfim, tudo de limão.

Foi em Amalfi que conheci a D. Rosa, uma senhorinha que cuida de um dos banheiros públicos. É outro personagem que vai para o rol dos inesquecíveis conhecidos em viagem. A D. Rosa a principio parecia a pessoa mais rabugenta e mal humorada do mundo. Daí fui traduzir para umas gurias holandesas, acho, que ela estava oferecendo toalha de papel para que secassem as mãos. Asciugamani. E então foi quando ela veio puxar assunto, perguntando se eu falava italiano, de onde era, e os meus amigos, e contando que é responsável também pela limpeza da basílica de Amalfi, que o tempo no dia anterior estivera ruim, que tivemos sorte e por aí foi. Às vezes encontramos beleza e poesia sob as aparências mais improváveis... E às vezes as aparências mais agradáveis guardam interiores tão feios... Os sepulcros caiados... Quero treinar cada vez mais meu olho a captar tanto uns quanto outros...

A D. Rosa e a Costiera Amalfitana também ficaram com uma parte minha...






Nesse dia também fomos a Pompéia. Pompeii. Andando por aquelas ruas milenares é inevitável tentar reconstituir como era a vida naquele lugar à época de Cristo. Ruas pavimentadas, casas com dois andares, passarela de pedestres, água encanada... Vale cada segundo do passeio.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Diário de Viagem - Itália - parte 7

Chegamos a Nápoles, capital da região da Campania (Campanha) sul da Itália.

Assim como ocorre no Brasil entre as diversas regiões, diferença total na paisagem entre norte e sul aqui.

E quando chegamos a Nápoles o choque cultural foi impactante.

Nas cidades do norte não se vê um papel no chão; nenhuma pichação; todos os pontos históricos são cuidados e estão sob restauração; os motoristas de Firenze, por exemplo, vão avançando silenciosamente pelas vielas estreitas, atrás dos turistas, sem buzinar.

Em Nápoles há muita sujeira nas ruas; muita pichação nos monumentos; muitos dos quais precisam de reparo; o trânsito é o caos, com buzinaço pra todo o lado; há muita poluição visual.

Então houve meio que um choque por parte de todos os meus "chegados".

No entanto, Nápoles tem seus encantos e é uma cidade antiquíssima, do tempo dos gregos e romanos, tendo sido o porto mais importante do país durante muito tempo.

E Nápoles deu ao mundo Sophia Loren...

Não há tantos pontos turísticos. Fomos ao Castel Nuovo, uma fortaleza construída no século XIII; à Galeria Umberto I, que quer lembrar a Vittorio Emanuele de Milano, mas não guarda o mesmo esplendor das lojas grifadas; à Piazza Plebiscito, onde está o Palazzo Reale; às proximidades da praia; e à Via Toledo, a principal do comércio.

Paradoxalmente, no lugar menos agradável aos olhos foi onde comemos melhor. 

Almocei um risoto de limão com camarões que estava delicioso.



E jantamos numa pizzaria tradicionalíssima, de 1935, de uma família em que há 21 pizzaiolos. Sorbillo, www.sorbillo.it . Massa fininha, pizza maior que o prato. €50 entre sete pessoas. Filas de gente pra comer no local ou levar a pizza para casa. Indicada no Guia Visual da Folha de São Paulo.



Por falar em Guia da Folha, aproveitando a deixa, são ótimos. Usei o de Roma quando vim em 2010, e o da Itália agora. Excelentes.

Coisas interessantes: uma água nos hotéis e restaurantes sai entre €3 e €5. No supermercado custa entre €0,20 e €0,25.

Aliás, supermercado é sempre bom lugar de visitar no exterior. Fomos em um em Firenze em que comprei cremes nota 10, marca consagrada, por €18. E jogo de meias da Puma, com dois pares, por €3. Os chocolates da Lindt estavam €1.

De alguma forma, todo o caos de Nápoles a faz funcionar... Como diz meu guia aqui da viagem, Guilherme Brito, "tem gente que vê o olho e tem gente que vê a remela". Prefiro ver aquilo que Nápoles tem de bonito e melhor. E a viagem ficaria incompleta sem se ver essa realidade do sul.


domingo, 6 de outubro de 2013

Diário de Viagem - Itália - parte 6

Reencontrar-me com Roma foi muito bom.

Começamos o dia no grande grupo, visitando os Musei Vaticani e a Basílica de São Pedro.

Dicas úteis: quem não tem condições de caminhar muito não deve fazer esse passeio. Ficamos caminhando em torno de quatro horas. 

Há alguns locais de parada; um ou dois cafés durante o percurso. Mas se você estiver em um grande grupo, vai depender da boa vontade do guia pra parar.

Se você estiver sozinho, com o Roma senza fila se consegue driblar a várias vezes quilométrica fila de entrada. Falo com conhecimento de causa, porque quando fui sozinha foi o que fiz: paguei um pouquinho mais caro pela entrada e não fiquei na fila. Já falei sobre isso num post, mas estou sem wifi enquanto escrevo, e não tenho como recuperá-lo.

Um agravante: hoje é sábado, e certamente a quantidade de gente pelos pontos turísticos de Roma deve ter aumentado consideravelmente em função disso.

Mais um detalhe: a segurança no Vaticano também é monumental; o que ajuda na formação das filas; já que todos têm que passar pelo raio x.

Foi bom fazer a visita guiada, por um lado. Porém, por outro, desilude saber de pequenos erros de grandes obras, como os da Capela Sistina.

Terminado o passeio, no tempo livre peguei minha turminha e fiz um itinerário que percorresse a maior quantidade possível de pontos importantes de Roma e que fosse possível de se fazer em meia tarde.

Fomos à Piazza di Spagna e almoçamos na Via della Croce, nos arredores.



Dali tomamos a Via dei Condotti, super estrelada com grifes das mais chiques, até a Via del Corso, uma das principais de Roma.

A certa altura quebramos à direita para alcançar o Pantheon.


Uma delícia caminhar pelas ruelas para vir e voltar à Via del Corso.

No mais das tantas se descortina a Câmara de Comércio:



Seguimos até a Piazza Venezia, onde fotografamos o Monumento a Vitorio Emanuelle II e tomamos "o" gelato "veramente italiano" no Café Brasile.




Seguimos pela esquerda do Monumento, passando pelo Mercado de Trajano e Fórum Romano, e terminamos no Coliseu.






Nem sei explicar direito o que senti. Foi muito bom ver que fui capaz de guardar perfeitamente bem na memória a localização de cada coisa; que sou capaz de me virar em Roma sozinha.

E uma sensação que não passa é a emoção de pensar na cultura riquíssima que já existia aqui muito antes de Cristo. E tentar recriar tudo isso na cabeça, a partir de uma série de ruínas. Em Roma você caminha sobre a História. 

Essa caminhada tem cerca de seis quilômetros.

Roma é uma cidade para se andar a pé.

Pena que não foi possível fazer mais coisa. Ficou um gostinho de quero mais... Uma ótima desculpa para voltar...


sábado, 5 de outubro de 2013

Diário de viagem - Itália - parte 5

Hoje reencontrei Roma. Foi como voltar pra casa.

Gosto dessa sensação de estar em casa, a milhares de quilômetros de distância da minha própria casa.

Roma é monumental. Não há palavra que defina melhor essa cidade. Monumental.

E é a cidade que melhor traduz a expressão "verniz do tempo". O verniz de milhares de anos dá à Roma uma expressão única. Qualquer calçada pode ser da Idade Média, por exemplo. E pra qualquer lado que se olhe se pode encontrar algum templo da Roma Antiga.

Chegamos aqui no final da tarde, e fizemos um passeio à noite por alguns dos principais pontos.

A noite empresta certa poesia a alguns lugares históricos. E beleza, por conta do jogo de luz. Fontana di Trevi e Fontana dei Quattro Fiumi, na Piazza Navona, por exemplo.

E dá imponência a outros. Como a Basílica de São Pedro e o Pantheon.

Amanhã será dia de esquadrinhar a cidade por conta. Mais uma vez não vejo a hora de me aventurar pelas ruas, descobrindo coisas fenomenais. 

Não esquecendo, passamos por Arezzo. Linda cidade que guarda um quê da época medieval. É possível se transportar no tempo e se imaginar naquele período. Dá pra entender como se vivia.

Tinha muita curiosidade de conhecê-la, não estava no roteiro e acabou incluída por causa da festa de Santo Antônio, com a presença do Papa, em Assis.

Pena que não foi em dia da famosa feira de antiguidades que acontece no primeiro domingo de cada mês...

Mudando o foco: tem Sephora até em Arezzo, cidade pequenina. Sabendo comprar, há bons preços. Kit de shampoo, condicionador e máscara da John Frieda por €21, o que dá pouco mais de R$60. No Brasil é o preço só do shampoo...

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Diário de Viagem - Itália - parte 4

Hoje uma parte de mim ficou em Firenze. Foi onde tive o primeiro assomo de genuína emoção no meio da rua, cercada de magníficas estátuas na Piazza della Signoria e me deu vontade de chorar.

Firenze é o lugar que melhor traduz fisicamente o conceito de beleza, que se descortina e esparrama diante dos olhos por todos os lados. É inebriante, é extasiante. É o lugar que melhor conjuga o histórico dos prédios com o contemporâneo do comércio e do trânsito, num equilíbrio delicado e próprio.

O coração bateu mais forte quando fomos liberados e me vi solta pelas ruelas de Firenze.

Isso que não nos foi possível visitar os museus - a única parte que me deixa triste -, considerando que estamos ficando pouco tempo em cada lugar e as filas das bilheterias estavam quilométricas. 

Mas o simples fato de estar em Firenze, de respirar Firenze, de flanar pelas ruelas, é suficiente para despertar o espírito.

Tudo é magnificente aqui. A majestade da Cattedrale di Santa Maria del Fiore, a beleza da Piazza della Signoria, a austeridade do Palazzo Pitti, quase uma fortaleza, a riqueza do pátio interior da Basílica di Santa Croce... Amei Firenze com todo o coração.

Cada ruela reserva uma surpresa. Uma igreja, um prédio histórico, uma loja diferente... Até uma espécie de oficina de escultores...

E as pessoas daqui também são diferentes. As mais simpáticas, verdadeiramente simpáticas. Jamais vou esquecer o senhor da banquinha em que fui comprar uma bolsa turística pra guardar a tralharada que estava carregando e que foi extremamente educado, tomando tudo da minha mão e acomodando na bolsa pra mim. Ou a moça que nos atendeu no Mercado da Palha, na banca de legítimos lenços italianos. Extremamente simpática e educada. E me dizia que me conhecia de algum lugar, que não lhe sou estranha. E eu dizia ser impossível, por ser a minha primeira visita a Firenze. Eu e minhas amigas ainda ganhamos um lenço cada uma. Ou o maitre do Restaurante Il David, na Piazza della Signoria, onde almoçamos, pra quem disse "aspetta um attimino" (espera um minutinho) e que achou que eu era fiorentina, porque é uma expressão típica de Firenze, que nem todo mundo conhece. Ou a moça que nos atendeu no café.

Jamais vou esquecê-los, assim como nunca esqueci o senhor que me atendeu  em uma das lojas do mercado de Jerusalém. Me encantei com um colar; foi atração imediata, o colar e eu. Mas custava U$250. Eu podia gastar no máximo U$50. A conversa com o senhor foi tão bacana e ele queria muito que levasse o colar, porque viu que amei a peça. Acabou me vendendo pelos U$50, mesmo sem eu querer aceitar. Toda vez que olho o colar lembro dele e dessa história. Como lembro do garçom que salvou a mim e a minha mãe quando chegamos tarde da noite em Roma, nosso hotel não tinha água pra vender e ele, que era do restaurante ao lado, nos deu uma garrafa de presente. Ou o João Grande, o diminuto maleteiro de nosso hotel em Lisboa, que nos tratou com todo o carinho. Ou a Maria José e sua família, da Marisqueira Santa Marta, em Lisboa, que na véspera de Natal largou tudo o que estava fazendo pra nos levar para o hotel antes da meia noite (Maria José, voltarei a Lisboa em breve). E o senhor da loja de souvenirs próxima à Sarbucks, que deu um pequeno galo de Portugal pra cada uma de nós, minha irmã, minha mãe e eu. Ou o senhor dono da pastelaria defronte à estação de trem de Sintra, que, satisfeito com a nossa comilança, disse que fazia tempo que não via ninguém comer com tanto gosto como minha família e eu. Ou a Silvia, dona do hotel em que ficamos em Montevidéu. Todas pessoas que seguirão comigo.

Os fiorentini (florentinos) abrem um sorriso de orelha a orelha quando você se dirige a eles em italiano. Foi o lugar em que mais senti isso.

A língua é um caso a parte. Minha cabeça já havia começado a funcionar em italiano dias antes da viagem. É uma delícia ser capaz de me expressar com as pessoas em italiano. E também em inglês. 

A minha inteligência, nas múltiplas inteligências, é a linguística. Então ser capaz de falar, pensar, escrever, me expressar e comunicar em outra língua me dá um prazer indescritível. É como exercitar uma parte do corpo que estava parada há tempos. Mas o italiano brota pelos poros...

Por falar em exercitar, nem preciso dizer que estou quebrada, depois de um dia inteirinho caminhando... Porém, uma quebrada feliz, extremamente feliz...

Mais um assunto digno de nota: no exterior tem que ir no supermercado. É de enlouquecer. Artigos inimagináveis. E coisas com preço bom. Chocolate Lindt e Toblerone por €1, por exemplo. Por volta de dez vezes mais barato que em Porto Alegre...

Aqui na Itália também compensa ir nas farmácias pra comprar cremes. La Roche-Posay e Vichy entre metade e 1/3 do preço.

Últimas pessoas que devo mencionar: meus amigos chegados, excelentes companheiros de viagem, divertidos e parceiros pra qualquer negocio; e nossa guia local, Eleonora; uma italiana que se criou em São Paulo. Lá pelas tantas descubro que morou em Porto Alegre, Caxias do Sul, Farroupilha e veraneava em Capão da Canoa. E que ama os cafés coloniais da serra gaúcha. Preciso dizer mais? Na minha próxima vinda a Firenze vou procurá-la...

Sim, próxima vinda... Porque um passeio de um dia é suficiente apenas para apreender que se está diante de um verdadeiro tesouro... Mas talvez uma vida não seja suficiente para se descobrir Firenze...